17-02-2020, 11:23 PM
Divórcio com cachaça
A primeira urina do dia é tão forte que se eu mijasse no tanque do meu carro a ignição explodiria sem engasgo. Isso pelo fato de que os líquidos que bebi nas últimas 24 horas foram todos a base de etanol: cervejas; vinhos; e, para variar, a saliva e o suor da Andreia, que tinham gosto de caipirinha de saque. Aqui, abro parênteses (nessa vida, eu temo duas coisas: a morte; e sofrer com pedra nos rins. A primeira é inevitável; a segunda, seria fácil de evitar caso eu bebesse mais água! Logo, vivo à espera da pontada que cedo ou tarde virá no lado direito).
Por obrigação eu aperto a descarga – o cheiro de ureia – e tomo coragem para olhar no espelho. Fico horrorizado com minha própria cara! A calvície está cada vez maior; as olheiras, mais escuras; e as espinhas, mais protuberantes. Sou um homem na casa dos 30 tendo uma puberdade de trás para frente! Escovo os dentes com o resto da pasta (a mesma que uso no trabalho) e saio do banheiro, escutando o som dos meus passos ecoando pelos cômodos vazios. Esse ruído não é novo para mim! A primeira vez que escutei foi quando o corretor nos apresentou o imóvel há três anos. Na ocasião, decidíamos como iriamos mobiliar...
Eu não tinha esperança de conciliação. Acho que não queríamos! Fato é que na noite passada transamos, talvez pela última vez, no piso duro da sala, protegidos apenas pelo colchão de casal. A cama propriamente dita (as madeiras e os paus), foram levados por ela, junto com o guarda roupas, o sofá, a geladeira, o fogão e a máquina de lavar roupas. Teve a misericórdia de não pegar o micro-ondas pois o risco de eu emagrecer era alto! Também deixou o tal do colchão, a mesa da cozinha, a estante da sala com a TV de plasma (de plasma!!!), um maço de cigarros, uns trinta reais e meia dúzia de camisas minhas por passar, e que assim vão ficar um bom tempo... pois o ferro também foi pro saco no processo. Não sei a custo de qual milagre ainda me sobram duas bolas e não apenas uma!
O motivo da visita - uma semana após ela ir de mudança - foi o ofício de pegar o resto de suas roupas (propósito?), que estavam dentro de uma caixa que ficou estrategicamente aberta. Durante a semana, não me envergonho em confessar, foi difícil resistir à inclinação de sentir o cheiro gostoso do corpo dela, ainda impregnado naquelas camisetinhas. Fui forte! Pelo menos chorar eu me permiti, diversas noites por sinal, com minha mãe ao telefone. Agora, buscar resquícios do fantasma da minha ex-mulher no meio daquelas roupas, isso não.
A vida amorosa de alguns casais (nem todos) funciona como Danone de criança. Tem começo, meio e fim. No início, o menino puxa o lacre, lambe a tampa metálica e toma com colheradas fartas: tal foi o dia em que o corretor nos apresentou a casa pela primeira vez. Porém, por mais prazeroso que o Danone seja, uma hora ele acaba e o pote tem que ser descartado, mas não sem que os restos sejam lambidos com ponta de dedo. Assim foi o nosso sexo de ontem à noite: nada abundante, mas doce como o de costume.
Em contraste, digo que o sentimento de agora é amargo. Não posso filosofar sobre como será a minha próxima parceira, e ao mesmo tempo ignorar a terrível impressão do “próximo” parceiro dela. E isso, considerando que não nos amamos mais... vá vendo só! Mesmo assim, pensar na hipótese dói tanto quanto as pedras nos rins devem doer, mas não tem jeito: logo outro alguém, cedo ou tarde, “beberá da caipirinha de saquê”. Só não garanto que mijará tão forte quanto eu! Por deus, se eu pudesse escolher, preferia encarar a dor nos rins. Fato egoísta e hipócrita. Mas é fato!
O término foi amigável, sem rancor nem ranger de dentes. Nos casamos muito cedo em uma ação mal calculada, assim concluímos. A família apoiou e entendeu, a ausência de filhos facilitou o divórcio: melhor agora do que no futuro, pontuou o sogro. Parceiros fomos no início, e parceiros somos no final, com direito a bebidas, abraços e beijos no quintal. E digo que não guardo mágoas. Aliás, apenas uma: o fato dela também ter levado todas as panelas. Conforme ela mesma disse, eu não precisava em razão de nem ovos saber fritar. Filhinha da puta! Café pelo menos eu fazia. O que vou beber agora de manhã para curar a ressaca?
Enrolo o colchão como se ele fosse um “Rocambole” daqueles com sabor de chocolate ou doce de leite. Este aqui, porém, tem recheio de lamento, frustração e perca de tempo! Você me foi muito boa; e todos os dias eu rumino a certeza de que também lhe fui muito bom! Mas, para nós dois, o mundo lá fora parecia ser maior do que nosso colchãozinho aqui dentro; não permitindo a construção de colunas fortes... fortes o suficiente para garantir o sustento do peso sobre nossa casa. Insatisfeitos éramos casados, e insatisfeitos somos após a separação... Como diria o mestre Schopenhauer, estamos apenas sentindo na pele, a Eterna Insatisfação.
Quando acabo de guardar os restos do que um dia foi uma cama de casal, sou surpreendido com uma mensagem no celular: era ela, alegando que esquecera os sapatos e que, à “nossa antiga casa”, precisava voltar. Com riso e graça – de uma menina que sabe que está aprontando – pergunta de forma sádica sobre meu temor em revê-la outra vez. Digo sem demora que nessa vida, além da morte, só pedras nos rins me botam medo! Volte quantas vezes precisar. Pegue suas coisas e devolva algumas das minhas. Não importa! Só peço que, se aqui for retornar, me avise com antecedência... para que o “Rocambole” eu possa desenrolar.
E que venha com sua própria garrafa, dessa vez!

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