16-03-2016, 01:00 PM
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Maria Angélica assustou-se com a exposição nas redes e nos jornais. Mulher, pobre e negra, 45 anos, mãe de duas filhas, ela é a personagem da foto que circulou o país inteiro essa semana. Aparece uniformizada, durante seu horário de trabalho, cuidando dos filhos de um casal branco vestido de verde e amarelo. Capturada por um jornalista durante os protestos que tomaram as ruas no domingo, a cena viralizou como um emblema da desigualdade racial no país.
Os patrões foram tratados como versões contemporâneas dos senhores de engenho, enquanto Angélica seria a atualização do escravo. Isso é muito sério. Diante das profundas marcas deixadas pela escravidão na história brasileira, é preciso ter muita responsabilidade ao propor qualquer comparação como essa. Antes de tudo, é preciso ouvir Angélica.
A escravidão foi a mais abjeta das práticas de desumanização. Sua repugnância está em tratar seres humanos como meros objetos e utilizá-los como meios para fins de terceiros, supostamente superiores. Trata-se de uma situação extrema de opressão e anulação da liberdade. Nela, as vontades individuais são desprezadas - e a pessoa utilizada ao bel prazer de outrem.
Por melhores que sejam as intenções, quando o trabalho livre e digno de Angélica é comparado à condição de escravidão, desprezando a sua própria voz, acaba sendo reproduzida uma lógica semelhante. No fundo, estamos diante da utilização de uma pessoa como um simples instrumento. Calar a voz do negro é uma triste tradição brasileira.
Em entrevista ao Jornal Extra, Angélica teve sua voz respeitada. Explicou que começou a trabalhar como babá para desafogar as finanças e ajudar o marido a fechar as contas da casa. Apesar do julgamento precipitado de muitos na internet, seu horário de trabalho no fim de semana está longe de ser um peso. “Quero curtir a infância da minha filha mais nova”, esclarece Angélica sobre sua opção por trabalhar apenas aos sábados e domingos.
Outra certeza dos internautas era sobre a condição degradante de usar um uniforme. Angélica pensa diferente. “Tem casas que não pedem, outras precisam. Eu acho até melhor porque preserva mais as nossas roupas. Eles é que dão tudo”.
Sobre os debates nas redes sociais, ela manda um recado: “Não fiquem preocupados. Quem me apoiou sabe do valor que a gente dá a trabalhar e ter nosso dinheiro. A gente tem de dar valor ao trabalho, independente de usar de uniforme ou não”.
A apropriação da imagem de Angélica como um arquétipo mostra arrogância de tratá-la não como alguém responsável pelas próprias decisões, mas como um emblema. Faltou respeito à individualidade. Ficou uma prova de que precisamos exercitar calar na hora de ouvir.
Confira a entrevista completa de Angélica: http://goo.gl/NMNaoh
E que sejamos, todos, #LivresParaTrabalhar.
Maria Angélica assustou-se com a exposição nas redes e nos jornais. Mulher, pobre e negra, 45 anos, mãe de duas filhas, ela é a personagem da foto que circulou o país inteiro essa semana. Aparece uniformizada, durante seu horário de trabalho, cuidando dos filhos de um casal branco vestido de verde e amarelo. Capturada por um jornalista durante os protestos que tomaram as ruas no domingo, a cena viralizou como um emblema da desigualdade racial no país.
Os patrões foram tratados como versões contemporâneas dos senhores de engenho, enquanto Angélica seria a atualização do escravo. Isso é muito sério. Diante das profundas marcas deixadas pela escravidão na história brasileira, é preciso ter muita responsabilidade ao propor qualquer comparação como essa. Antes de tudo, é preciso ouvir Angélica.
A escravidão foi a mais abjeta das práticas de desumanização. Sua repugnância está em tratar seres humanos como meros objetos e utilizá-los como meios para fins de terceiros, supostamente superiores. Trata-se de uma situação extrema de opressão e anulação da liberdade. Nela, as vontades individuais são desprezadas - e a pessoa utilizada ao bel prazer de outrem.
Por melhores que sejam as intenções, quando o trabalho livre e digno de Angélica é comparado à condição de escravidão, desprezando a sua própria voz, acaba sendo reproduzida uma lógica semelhante. No fundo, estamos diante da utilização de uma pessoa como um simples instrumento. Calar a voz do negro é uma triste tradição brasileira.
Em entrevista ao Jornal Extra, Angélica teve sua voz respeitada. Explicou que começou a trabalhar como babá para desafogar as finanças e ajudar o marido a fechar as contas da casa. Apesar do julgamento precipitado de muitos na internet, seu horário de trabalho no fim de semana está longe de ser um peso. “Quero curtir a infância da minha filha mais nova”, esclarece Angélica sobre sua opção por trabalhar apenas aos sábados e domingos.
Outra certeza dos internautas era sobre a condição degradante de usar um uniforme. Angélica pensa diferente. “Tem casas que não pedem, outras precisam. Eu acho até melhor porque preserva mais as nossas roupas. Eles é que dão tudo”.
Sobre os debates nas redes sociais, ela manda um recado: “Não fiquem preocupados. Quem me apoiou sabe do valor que a gente dá a trabalhar e ter nosso dinheiro. A gente tem de dar valor ao trabalho, independente de usar de uniforme ou não”.
A apropriação da imagem de Angélica como um arquétipo mostra arrogância de tratá-la não como alguém responsável pelas próprias decisões, mas como um emblema. Faltou respeito à individualidade. Ficou uma prova de que precisamos exercitar calar na hora de ouvir.
Confira a entrevista completa de Angélica: http://goo.gl/NMNaoh
E que sejamos, todos, #LivresParaTrabalhar.

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